quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Nova Renda



Em uma passagem inesperada ao Rio de Janeiro fui, seguindo recomendações, ao Centro Cultural Banco do Brasil. Ao subir e descer pelos andares revestidos de arte contemporânea me deparei com uma sala que inicialmente me chamou atenção pelo colorido.

Ao entrar encontrei um emaranhado de sacos plásticos de variadas formas, tamanhos e cores. Os sacos estavam costurados formando uma grande teia . Caminhando entre a teia pude perceber que nós próprios sacos as linhas formavam além da costura alguns desenhos. Enquanto estive na na sala fui acompanhada por um insistente barulho de máquina de costura trabalhando que não nos deixa esquecer a ligação entre todo aquele plástico. A obra denominada Renda foi iniciada em 2006 e já tem 50 metros quadrados de sacolas plásticas costuradas porém, a obra ainda está em processo contínuo.

A autora da obra é a artista contemporânea Lívia Moura. Lívia faz parte da nova geração de artistas cariocas e cursa artes na Universidade Estadual do Rio de Janeiro, UERJ. A maioria de seus trabalhos são baseados em performances e instalações.

A obra Renda está dentro da exposição Nova Arte Nova que funciona no Centro Cultural Banco do Brasil desde o dia 21 de outubro e termina dia 04 de janeiro de 2009. A mostra tem a pretensão de apresentar um painel das experiências e projetos desenvolvidos pela nova geração das artes plásticas no Brasil. A curadoria da mostra é de Paulo Venancio Filho.

A sacola retornável e a biodegradável – alternativas para o fim do saco plástico


A gerente de marketing da Super Rede, Paula Albuquerque, disse em entrevista por telefone que a Super Rede (rede de supermercados que engloba o Mercadinho São Luís) resolveu incentivar o uso de sacolas retornáveis com a intenção de "ultrapassar ao máximo" o uso das sacolas plásticas. Assim como os supermercados da Super Rede, o supermercado Pão de Açúcar também vende sacolas retornáveis, semelhantes às usadas antigamente, como alternativa para a substituição das plásticas.

As sacolas retornáveis são feitas, como informa o site sacolaretornavel.com, a partir da reciclagem de garrafas PET (Politereftalato de etila), transformadas em fibras de poliéster e aplicadas em tecidos. Ainda segundo o site, o Brasil descarta sete bilhões de garrafas PET por ano, material que leva 300 anos para se decompor e que, se aproveitado, pode diminuir consideravelmente os danos na natureza.

Na opinião de Goretti Gurgel, ambientalista do Conselho de Políticas e Gestão do Meio Ambiente do Ceará (Conpam), outra possível alternativa para o fim dos sacos plásticos é a utilização de sacolas biodegradáveis, que, segundo ela, demoram apenas alguns meses para desaparecerem da natureza. Entretanto, a equipe de reportagem não conseguiu encontrar nenhum representante que as vendesse em Fortaleza.

As embalagens biodegradáveis, conforme as informações do site setor reciclagem, usam uma nova classe de materiais a base de bioplásticos compostáveis, feitos de batata, milho, cana de açúcar, mandioca, soja e girassol. Estas sacolas, depois de usadas, podem ainda embalar o lixo da cozinha, resultando na decomposição perfeita.

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ÁUDIO - A Gerente de Marketing da Super Rede, Paula Albuquerque, fala da iniciativa do supermercado.

Travesseiro do bem


A artesã Maria Eugênia Freitas, estudante de podologia da Universidade Anhembi Morumbi de São Paulo, se define como “extremamente pela natureza”. Em entrevista por e-mail, ela afirma ser capaz de chorar até pela morte de uma formiga. “Como um dia que enterrei uma [formiga] na praia, pra mostrar pro meu filho como ela empurraria a areiazinha que estava em cima dela pra sair. Qual não foi meu desespero quando ela saiu arrastando a patinha que se quebrou quando a enterrei, e logo em seguida morreu. Acabou meu dia”, conta.

E é essa preocupação com a natureza que transformou a casa da paulistana em um depósito de tralhas. “Guardo tudo, e quando surge a idéia de algo, lá vou eu pegar o material pra botar a mão na massa”, diz. Foi assim Maria Eugênia teve a idéia de usar sacos plásticos de supermercado para fazer almofadas e travesseiros. Este da foto ao lado mede 0,70 X 0,60 cm e foi feito com tiras de sobras de tecido e preenchido com, nada mais nada menos, que mil sacolinhas picotadas.

Um travesseiro tão simples como esse não parece ter tantas utilidades. Mas tem. Além de dar um novo uso aos sacos plásticos e evitar que eles acabem poluindo as margens dos rios, a paulistana garante que os travesseiros não dão alergia, não mofam, não têm cheiro, e ainda ficam “parecendo que têm enchimento de pena de ganso”, afirma.

A idéia é divulgada pela artesã que se alegra ao dizer que muitas almofadas e travesseiros assim já devem ter sido confeccionados pelo mundo afora. “Que bom, ´né’?”, vibra. “Todas as idéias que tenho com materiais que normalmente se jogam na natureza, coloco em prática”, diz. E complementa: “Tenho muitas idéias. Minha cabeça fervilha”.

Pelo fim do saco plástico


A campanha “Pelo fim do saco plástico”, proposta pelo Ministério Público do Estado do Ceará (MP/Ce), representado pela procuradora de Justiça e coordenadora do Centro de Apoio Operacional ao Meio Ambiente (Caomace), Sheila Pitombeira, pretende educar e sensibilizar os comerciantes e varejistas de Fortaleza para que se reduza o uso de sacolas plásticas nos estabelecimentos. “Nossa expectativa é promover a redução em 30% do uso de sacolas plásticas no primeiro ano”, revela Sheila.

Inicialmente, a campanha contactou shoppings centers e supermercados da capital. “Estes segmentos comerciais foram muito receptivos, mas ainda estamos na fase de análise em torno das estratégias para substituir as sacolas plásticas nesses estabelecimentos”, ressalta a procuradora. Para ela, o maior obstáculo é o fato de alguns supermercados e lojas pertencerem a redes internacionais, o que faz necessária a análise sobre as diversas realidades.

A procuradora ressalta que a Lei federal nº 9795/1999, que dispõe sobre a educação ambiental, impõe ao Poder público que incorpore e promova o engajamento da sociedade na conservação e melhoria do meio ambiente. “Estamos cumprindo a lei”, acrescenta ela.

Universidade de Integração Luso-Afro-Brasileira começa atividades em 2010

Por Denise Barbosa

A partir de 2010 serão inaugurados os trabalhos da comissão de implantação da segunda universidade federal no Ceará. Em Julho de 2008 começou a tramitar na Câmara dos Deputados um projeto de lei que cria a Universidade de Integração Luso-Afro-Brasileira (Unilab). Essa universidade federal de caráter internacional terá cede em Redenção (CE), município a 66 quilômetros de Fortaleza.

Segundo a coordenadora de Assuntos Internacionais, Maria Elias Soares, a União prevê, para 2009, um investimento de R$ 30 milhões voltados para a infra-estrutura da Unilab. A Universidade Federal do Ceará (UFC) ficará responsável por receber os recursos iniciais e executar as medidas para implantação da Unilab até que esta possa se auto-gerenciar.
O projeto de lei que cria a Universidade de Integração Luso-Afro-Brasileira define a língua portuguesa como idioma comum da instituição, com cursos ministrados em parte presencial e à distância. Serão 5 mil vagas ofertadas e dessas, 50% serão destinadas aos estudantes de países da África, segundo o presidente da comissão de implantação da Unilab, Paulo Speller.

Logo no início da criação da universidade, os cursos ofertados estarão voltados para as seguintes áreas: Formação de Professores, Saúde, Gestão e Ciências Agrárias e Florestais. Com o início das obras da Companhia Siderúrgica de Pecém (CSP), em São Gonçalo do Amarante, previsto para 2009, existe a proposta de a universidade abrir cursos nas áreas de engenharia de petróleo, metalurgia e siderurgia.

No dia 19 de Novembro foi realizada uma entrevista coletiva sobre a Universidade Federal de Integração Luso-Brasileira visando apresentar detalhes sobre a implantação, bem como apresentar a proposta à população de Fortaleza. Participaram da coletiva Paulo Speller, presidente da comissão de implantação da Unilab e ex-Reitor da Universidade Federal de Mato Grosso, membros de outras instituições e Maria Elias Soares, coordenadora de Assuntos Internacionais da UFC.

Em Julho de 2008, o projeto foi apresentado à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), da qual fazem parte: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. Até Julho de 2009, a comissão de implantação da Unilab prevê a ocorrência de reuniões em cada um desses países membros da CPLP.

O projeto, de autoria de José Guimarães (PT-CE), para ser aprovado, deve ser analisado pelas Comissões de Trabalho, de Administração e Serviço Público; de Educação e Cultura; de Finanças e Tributação; e de Constituição e Justiça e de Cidadania. Se aprovado nessa instância, vai para a votação em plenário.

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Mais:
Redenção: cidade da liberdade!
Aprendendo com a internacionalização
Outros interesses em jogo

Saquinhos de supermercado: da febre nacional à herança do descaso

Aqueles saquinhos de supermercado que entulham as cozinhas dos brasileiros e são aparentemente inofensivos têm uma sina: a poluição do meio ambiente.


Por Amanda Sampaio, Isabela Monteiro, Ranne Almeida e Samaísa dos Anjos



Tente imaginar como será a vida na Terra daqui a 400 anos. Talvez os carros já não existam e as pessoas só andem de avião, ou talvez elas nem saiam mais de casa por conta do avanço da tecnologia. O futuro é incerto, e cada um pode imaginá-lo de forma diferente. A única certeza que podemos ter é que a sacola plástica que você joga hoje na natureza, ainda existirá daqui a quatro séculos.

Segundo a ambientalista do Conselho de Políticas e Gestão do Meio Ambiente do Ceará (Conpam), Goretti Gurgel, dependendo da composição da sacola plástica, ela pode demorar até 400 anos para se decompor. Imagine então uma família composta por 4 pessoas que utiliza cerca de 12 sacolas por dia. Em um ano, isso resulta em 4380 sacos jogados na natureza, de acordo com ela.

É muito comum utilizarmos sacos plásticos como se eles fossem descartáveis e não nos damos conta dos danos desastrosos que estes podem causar no meio ambiente. Por serem produzidos a partir de resina sintética originada do petróleo, quando queimados, podem causar câncer por liberarem gases tóxicos, como dioxinas e furanos, que provocam mutação na genética humana, explica a ambientalista.

Além disso, Goretti diz que os efeitos nocivos se estendem aos animais que ingerem os plásticos confundindo-os com alimentos. Eles não têm capacidade de digerir as substâncias e morrem. Isso acaba afetando toda a cadeia alimentar do habitat de animais como peixes, tartarugas, bois, vacas, ovelhas, porcos, dentre outros.

Outra conseqüência apresentada pela ambientalista é o fato de que, como as sacolas estão sendo fabricadas em larga escala, elas ocupam grandes espaços nos depósitos de resíduos sólidos, diminuindo a vida útil dos aterros sanitários.


Foi pensando nisso que o Ministério Público do Estado do Ceará (MP/Ce), representado pela procuradora de Justiça e coordenadora do Centro de Apoio Operacional ao Meio Ambiente (Caomace), Sheila Pitombeira, propôs no início de abril deste ano a campanha “Pelo fim do saco plástico”. Sua finalidade é educar e sensibilizar os comerciantes varejistas, objetivando a redução das sacolas plásticas.

Segundo o MP, os sacos, introduzidos nos anos 70, logo se tornaram populares por serem distribuídos gratuitamente nos supermercados e nas lojas. Além disso, constituem uma forma barata de publicidade para os estabelecimentos que os distribuem, em virtude da decoração com o símbolo das marcas.

Para Sheila, é estimado que circulam em todo o mundo entre 500 bilhões a 1 trilhão de sacolas anualmente. Ainda segundo ela, no Brasil são produzidos 210 mil toneladas anuais de plástico filme, uma película normalmente utilizada na fabricação de embalagens plásticas. Isto representa 9,7% de todo o lixo do país, e somente 1 a 3% dessas sacolas acabam sendo recicladas, afirma.

Veja Mais

A ambientalista do Conselho de Políticas e Gestão do Meio Ambiente do Ceará (Conpam), Goretti Gurgel, fala sobre o problema dos sacos plásticos.



Você sabe o que são tábuas de plástico? Confira a reportagem do Jornal Nacional, da Rede Globo, sobre uma alternativa que pode dar utilidade a pelo menos 9 mil sacos plásticos.



Saiba Mais

Alternativas para o fim do saco plástico. Saiba o que são sacolas retornáveis e sacolas biodegradáveis.

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Arte com lixo. A artista que usa sacos plásticos para construir e costurar.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Sobre crianças, Rússia, tenacidade e meritocracia

Um órfão de seis anos, russo, será adotado por um casal de italianos. Esse é o começo de O pequeno italiano (Italianetz, 2005), do diretor russo Andrey Kravchuk. Vanya Solntsev, o sortudo de um orfanato caindo aos pedaços na Rússia contemporânea, passa a ser chamado então de “pequeno italiano”. Ele foi vendido, como várias outras crianças, através da mediação de Madam, mulher inescrupulosa e obstinada que representa a única forma de sair do orfanato. Demorará ainda dois meses para que o pequeno vá embora com seus pais adotivos e, nesse tempo, a alegria segura de estar indo para um lugar melhor dá espaço a várias dúvidas. É que a mãe biológica de Mukhin – um garoto do orfanato que havia sido adotado – apareceu em busca de seu filho. Como não o encontrou, suicidou-se. As crianças do orfanato não conseguem parar de pensar no caso; no fundo, elas têm esperança de que suas mães os encontrem.
Tocado por esse fato, Vanya começa a pensar se sua mãe não estaria à sua procura também. Seus amigos tentam dissuadi-lo da idéia, mas ele resolve aprender a ler para descobrir de onde veio e onde está sua mãe. Aqui entra em cena Irka, adolescente que passa o filme todo descendo dos caminhões de seus clientes – ela é uma “boneca”, gíria para prostituta – e ainda arranja forças para ser solidária. Bonita personagem, arisca e livre. É Irka que vai ensinar Vanya a ler. Depois ela rouba o dinheiro de seus amigos e compra as passagens do pequeno italiano para o seu antigo orfanato, onde ele pretende descobrir mais sobre sua mãe.
O elenco conta com Kolya Spiridonov, o protagonista Vanya, e as outras crianças, que em sua maioria são realmente órfãs. Italianetz foi lançado em 2005 e marca a estréia de Andrey Kravchuk à frente de longas-metragens. O filme recebeu mais de 30 prêmios internacionais, entre eles o Grande Prêmio do Deutsches Kinderhilfswerk de melhor filme, no festival de Berlim de 2005. Integrou a seleção oficial do Festival de Toronto, em 2006, e foi o representante oficial da Rússia na tentativa de conseguir uma indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro, também em 2006. Chegou ao Brasil apenas em agosto do ano passado.
A idéia de O pequeno italiano surgiu no ano 2000, quando havia muitas crianças nas ruas da Rússia tentando ganhar a vida vendendo jornais, lavando carros ou fazendo outros tipos de trabalho manual. Andrey Kravchuk começou a pensar em fazer um filme sobre o tema – que alias já lhe era caro, pois havia feito um documentário sobre o assunto em 1994 – e conversou sobre a idéia com Andrei Romanov. Romanov se lembrou de uma notícia da época sobre um garoto órfão que decidiu procurar a mãe e para isso aprendeu a ler e escrever, fugindo pouco depois do orfanato onde vivia. Esta matéria de jornal foi a base para a história de O pequeno italiano.
Andrey Kravchuk nasceu em 1962, em São Petersburgo e é diretor de cinema e televisão e também roteirista. Em 1992 largou a faculdade de matemática e foi estudar cinema no Instituto de Cinema e Televisão, onde conheceu Semyon Aranovich, diretor que considera seu mentor. Entre 1992, ano em que começou a trabalhar com cinema, e 2005, Kravchuk escreveu e dirigiu 12 filmes, dos quais podemos citar os documentários Deti v Strane Reform (Children in the Country of Reforms), de 1994, sobre a problemática das crianças órfãs na Rússia, e Semyon Aranovich. Poslednii Kadr (Semyon Aranovich. The Final Shot), de 2002, em homenagem a esse diretor. Entre os diretores que o influenciaram estão, além de Aranovich, Dinara Asanova (Teenagers e Woodpeckers Don’t Get Headaches) e Vittorio de Sica (com Ladrões de Bicicleta, de 1948).
Uma boa surpresa de Italianetz é a interpretação do garoto Kolya Spiridonov, que faz o pequeno italiano. Ele desenvolveu até “cacoetes” para a personagem, que dão muita verossimilhança e naturalidade à atuação. Andrey Kravchuk contou, em entrevista disponível no site oficial do filme (www.sonyclassics.com), que a produção havia “descoberto” Kolya num curta e achou que era dele que precisavam. Kravchuk disse que achou que o charme do garoto era intenso para passar despercebido, apesar de ele ser terrivelmente nervoso, falar em voz baixa e não conseguir memorizar suas falas. A produção continuou procurando outras crianças, mas sempre voltavam a Kolya, até que Kravchuk resolveu correr o risco e começou a gravar com o pequeno. Segundo Kravchuk, foi quando viu as primeiras cenas do garoto que teve certeza de que havia feito a escolha certa. E essa foi também foi a opinião dos jurados dos três festivais que premiaram Kolya Spiridonov por sua atuação em O pequeno italiano.
Logo no início do filme, um diálogo anuncia qual será a tônica ao abordar a Rússia. “Essa é a Rússia”, diz Roberto, o italiano, mostrando uma paisagem cinza e desoladora. “Um lugar frio”, complementa Claúdia, esposa dele. O pequeno italiano mostra um país pobre, com grandes diferenças de classe e muita corrupção. No entanto, não há saudosismo com relação à Rússia soviética. Há, talvez, uma tentativa de dizer que os problemas vêm se arrastando desde aquela época. O sobrenome de Vanya, Solntsev, traz na palavra uma referencia ao sol e na história da União Soviética a referência a uma criança protagonista de uma novela do realismo socialista chamada O filho do regime, de Valentin Kataev, escrita em 1944. O filho do regime é um órfão adotado pelo exército e transformado num militar de elite. Outro elemento que dialoga com o passado soviético é a ameaça de Madame de mandar Vanya para um campo de trabalhos de forçados – herança do estalinismo –, apesar de que o próprio nome da rua onde se localiza o orfanato – Belomorkanal – é, por acaso, o nome de um dos primeiros projetos de “reeducação pelo trabalho” do companheiro Stálin. Também a rua do antigo orfanato de Vanya lembra o militarismo da URSS – Frunze é o nome do “pai” do Exército Vermelho. O diretor do orfanato da rua Belomorkanal é um sonhador da década de 60 que queria ser como Iuri Gagarin e hoje está desiludido, gastando seu tempo a beber e rememorar músicas da Rússia Soviética com seus amigos.
O filme é uma mistura de drama com aventura. A fuga de Vanya do orfanato e todos os clichês que o colocam sempre muito perto da megera Madam fazem a adrenalina subir e, quando se percebe, já se está torcendo pelo garotinho. A trilha sonora, feita por Alexander Kneiffel, é muito boa. Parece que durante toda a história estamos diante de uma caixinha de música entristecida – invoca infância, magia, melancolia e fragilidade. Às vezes a música se torna mais densa, chegando a dar medo. A música ajuda a dar uma sensação de que há dois mundos: o das crianças e o dos adultos. Vanya é uma criança no mundo dos adultos, embora com o avançar da noite vá ganhando força, auto-confiança e tenacidade. Ele pergunta várias vezes como chegar a Rua Frunze e as pessoas simplesmente não lhe respondem ou encetam uma conversa sem levar em consideração o que ele havia indagado. Há incomunicabilidade e indiferença.
Porém o mundo não é tão maniqueísta assim. Não há só os adultos mandando e as crianças obedecendo. O poder, entendido como uma teia de relações, permeia todas as instâncias da vida, estabelece-se entre todas as pessoas. Enquanto o diretor do orfanato controla todos da casa (crianças e adolescentes), outras relações de opressão são engendradas. É que os adolescentes mandam nas crianças: elas trabalham pra eles e devem-lhes obediência. Mas se onde há poder, há resistência, como disse o filósofo Michel Foucault, acontecem coisas como a fuga de Vanya e o roubo do dinheiro dos adolescentes para que pagasse suas passagens.
Há que se fazer críticas à construção dos personagens, que é muito caricatural. Madam é uma completa megera, uma bruxa, uma mulher que prefere o dinheiro ao amor e que vende criancinhas. Grisha, o motorista dela, é uma pessoa sem vontade própria, um “pau-mandado”, na nossa gíria cearense (apesar de sua mudança no fim do filme, que mesmo assim foi às escondidas). O diretor, um bêbado desiludido. Os garotos do trem que roubam o casaco de Vanya são os mais caricaturais de todos – “acho que esse casaco vale uma cerveja”. Também considero pouco verossímil a própria personagem de Vanya, apesar do momento em que ele enfrenta Grisha e chora; justamente a hora em ele se diz forte é o momento em que cai aos prantos. No entanto, o diretor Kravchuk se sai bem ao rebater as críticas que dizem respeito à Vanya: “eu entendo que as ações de nossa personagem têm de parecer absurdas, porque ele não foi guiado pela razão, mas pelo coração; não por uma capacidade de se comprometer, mas por uma necessidade extrema. Ele não quer, como muito de nós, simplesmente uma vida segura. Este garoto é um verdadeiro herói, no sentido existencialista, como nas obras de Camus e Sartre”.
Tenho medo de o filme representar uma ode à meritocracia, na medida em que desconsidera – ou minimiza, é melhor – as condições reais de vida de Vanya. Talvez os russos, fartos de tanto marxismo, estejam mesmo querendo considerar mais a força de vontade individual. Compreendo perfeitamente o incentivo a autoconfiança e discordo dos posicionamentos positivistas do marxismo, entretanto a meritocracia apresentada de tal maneira – redentora - é parte do pensamento liberal. E a Rússia liberal, até onde percebo, também está sendo criticada n’O pequeno italiano. O final feliz reconforta, depois de tanta melancolia e imagens cinzas, mas não tira do peito a dor pelas outras crianças, já que a história de Vanya é, segundo um de seus amigos do orfanato, uma em milhão.