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sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Entendendo a exclusão




por Eteile Teixeira


Avaliar e sugerir alternativas para os níveis de pobreza e de exclusão social que prevalecem nas regiões Norte e Nordeste do Brasil é o que visa o novo estudo publicado em maio de 2008, pelo Banco do Nordeste: “Mapa da Exclusão Social no Brasil: radiografia de um país assimetricamente pobre” , do professor e pesquisador José de Jesus Sousa Lemos, da Universidade Federal do Ceará (UFC), Pós-Doutor em Economia Ambiental e ex-secretário de Assuntos Estratégicos do Governo do Estado do Maranhão (foto).

A obra de 188 páginas, teve sua primeira edição em maio de 2005, esgotando-se rápido. O novo lançamento, no início do ano, baseia-se em pesquisas e orientações prestadas aos estudantes de mestrado e doutorado, pelo professor, e apresenta um indicador que mede a exclusão social, o Índice de Exclusão Social (IES), calculando para todos os municípios e regiões do Brasil e alguns países filiados à ONU.

O IES é constituído por cinco indicadores de privações e não se limita apenas a hierarquizar os municípios ou estados Brasileiros. Pelo índice é possível estimar o percentual da população excluída em cada um dos municípios, estados, regiões brasileiras e para o país. Além disso, o IES utiliza ponderações diferenciadas e estimadas com fundamentação científica para os indicadores que o compõem.

O motivo de o autor utilizar esse Índice, que criou como complemento de avaliação e medições de padrões sociais em regiões pobres, é a insuficiência, na sua opinião, do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) para medir o bem-estar social em áreas de pobreza. Lemos também mostra a forma como foi construído o IES, as suas fundamentações no conceito de pobreza, bem como sua capacidade de aplicação na formulação e execução de políticas públicas.

O objetivo do pesquisador era construir um trabalho que fizesse o diagnóstico da pobreza prevalecente nos municípios, estados, regiões e do Brasil, e que fosse capaz de, numa simples avaliação, observar onde estão as maiores carências, e a partir dessa identificação desenhar campanhas para combater a desigualdade social.

A análise observou os indicadores em cada um dos 5.506 municípios dos 26 Estados brasileiros e nos 19 distritos do Distrito Federal. As evidências encontradas mostram que os 200 municípios mais carentes do Brasil situam-se em três Estados da região Amazônica (Acre, Amazonas e Pará), em todos os nove Estados do Nordeste e em Minas Gerais, este último com apenas um município compondo o grupo dos 200 mais carentes.




José Lemos mantém a pobreza como centro do livro, posicionando-a como sinônimo de exclusão social. O professor denomina as pessoas privadas dos serviços essenciais à vida, de socialmente excluídas, por morarem em locais que não têm água encanada, destino adequado aos resíduos sólidos, renda mínima às despesas elementares e serem analfabetas.


Os resultados encontrados nesta nova versão do livro podem ser de grande utilidade, tanto para quem toma decisões de políticas públicas (governos federal, estadual e municipal), como para quem elabora as legislações voltadas para atenuar a exclusão social (senadores, deputados e vereadores), ficando fácil para os governantes identificarem de imediato onde estão as maiores carências dos locais que governam.

A partir dessa identificação das privações, em que são mostrados os percentuais das populações excluídas de municípios, Estados, regiões e Brasil (com desdobramentos para as zonas urbanas e rurais), as autoridades podem desenhar as políticas públicas de combate à pobreza, elegendo as prioridades de ação de acordo com as carências dos seus locais que o trabalho mostra.

O livro é voltado ao público em geral, especialmente a estudantes, profissionais e pesquisadores que lidam com fatores econômico-sociais e políticas públicas.
Os interessados devem entrar em contato com o Ambiente de Comunicação Social do BNB, fax (85) 3299.3530, e-mail clienteconsulta@bnb.gov.br ou diretamente com o autor, pelo e-mail lemos@ufc.br e fone (98) 3227.5633.

sábado, 25 de outubro de 2008

GAROTOS SÃO DE MARTE

por Carolina Nogueira


Ensinando a Viver (Martian Child, EUA, 2007) é baseado em um conto de David Gerrold, autor de roteiros para séries de ficção científica como Jornada nas Estrelas. No filme temos um outro David, também escritor de ficção científica, e um pequeno marciano em missão exploratória na Terra. Mas não espere invasões extraterrestres ou batalhas tecnológicas. Ensinando a Viver retrata com uma delicadeza infantil o dilema humano, ou talvez shakespeariano, do ser ou não ser.

David Gordon, interpretado por John Cusack, é um escritor viúvo que decide, sozinho, realizar o sonho de sua falecida esposa: adotar uma criança. O filme aborda superficialmente o processo de adoção, não apenas a burocracia, mas também os conflitos enfrentados pelo personagem ao imaginar as conseqüências da paternidade.

John Cusack tem colecionado papéis de destaque em filmes bem sucedidos como Identidade (Identity, EUA, 2003) e O Júri (Runaway Júri, EUA, 2003). Em Ensinando a Viver, ele deveria ser, mais uma vez, o centro das atenções, mas encontra um rival a altura em Bobby Coleman que interpreta Dennis, o garoto órfão que acredita ter vindo de Marte.

Dennis é um personagem fascinante com sua atitude filosófica de experienciar o mundo como se este fosse novo e surpreendente. O pequeno passaria facilmente por um personagem de Jostein Gaarder, autor de O Mundo de Sofia. Dennis tem problemas de relacionamento intensificados por sucessivos abandonos. Sua fragilidade emocional é sugerida logo no início do filme quando o garoto nos é apresentado dentro de uma caixa onde se lê “frágil”.

As histórias de David e Dennis se entrelaçam naturalmente graças aos pontos de identificação entre eles. Quando criança, David tinha problemas parecidos com os de Dennis: dificuldades em se relacionar, atitudes “estranhas” e, principalmente, a fuga através da imaginação. Ele acredita ser capaz de ensinar o garoto a se relacionar com o mundo e a agir como todas as pessoas, assim como ele conseguiu fazer.

A tentativa de mudar o comportamento de Dennis é um dos pontos centrais do filme. Na tentativa de evitar que ele seja rejeitado pela sociedade, a condição de “humano” lhe é imposta. Em uma das cenas, o garoto questiona se é bom ser igual a todo mundo e acaba sem respostas. Mas Dennis não é o único personagem a ser questionado em sua autenticidade. O Próprio David, em uma das cenas, tem de ouvir a máxima: “Por que você não pode ser como nós queremos que você seja?”. Existe um grande dilema entre a necessidade de se encaixar na sociedade e a de ser quem se é realmente, fazer o que se acredita.

Também ganham destaque no filme, os laços familiares criados pelos personagens e seus encontros com temas como perda e confiança. Dennis é uma criança que convive com o trauma do abandono e se protege mantendo um distanciamento do mundo que o cerca, reafirmando para si que ele não pertence àquela realidade e que um dia será resgatado e realmente querido em seu verdadeiro lar. Ele precisa descobrir que seu verdadeiro lar pode ser na Terra, ao lado de David.

Dirigido por Menno Meyjes, mais experiente como roteirista - Meyjes escreveu, por exemplo, o roteiro de A Cor Púrpura (The Color Purple, EUA, 1985) –, Ensinando a Viver não chega a arrancar lágrimas dos espectadores, mas comove ao narrar a história de um pequeno marciano que precisa aprender a ser como todos nós, sem deixar de ser quem ele realmente é.